{"id":503,"date":"2019-08-22T16:06:16","date_gmt":"2019-08-22T16:06:16","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/amazoniajudaica\/?p=503"},"modified":"2019-08-22T16:21:30","modified_gmt":"2019-08-22T16:21:30","slug":"como-viemos-parar-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.amazoniajudaica.com.br\/en\/2019\/08\/22\/como-viemos-parar-na-amazonia\/","title":{"rendered":"Como viemos parar na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>[et_pb_section fb_built=&#8221;1&#8243; admin_label=&#8221;About Us&#8221; _builder_version=&#8221;3.22&#8243; fb_built=&#8221;1&#8243; _i=&#8221;0&#8243; _address=&#8221;0&#8243;][et_pb_row _builder_version=&#8221;3.25&#8243; _i=&#8221;0&#8243; _address=&#8221;0.0&#8243;][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243; _builder_version=&#8221;3.25&#8243; custom_padding=&#8221;|||&#8221; _i=&#8221;0&#8243; _address=&#8221;0.0.0&#8243; custom_padding__hover=&#8221;|||&#8221;][et_pb_text _builder_version=&#8221;3.27.2&#8243; text_font=&#8221;||||||||&#8221; header_font=&#8221;||||||||&#8221; header_2_font=&#8221;Rubik|700|||||||&#8221; header_2_font_size=&#8221;42px&#8221; header_2_line_height=&#8221;1.2em&#8221; text_orientation=&#8221;center&#8221; module_alignment=&#8221;center&#8221; custom_margin=&#8221;|||&#8221; custom_padding=&#8221;|||&#8221; hover_enabled=&#8221;0&#8243; header_2_font_size_phone=&#8221;36px&#8221; header_2_font_size_last_edited=&#8221;on|phone&#8221; locked=&#8221;off&#8221; _i=&#8221;0&#8243; _address=&#8221;0.0.0.0&#8243;]<\/p>\n<h2><strong>Como viemos parar na Amaz\u00f4nia<\/strong><\/h2>\n<h4>Por:\u00a0Sultana Levy Rosenblatt<\/h4>\n<p>[\/et_pb_text][et_pb_text _builder_version=&#8221;3.27.2&#8243; text_font=&#8221;||||||||&#8221; header_font=&#8221;||||||||&#8221; header_2_font=&#8221;Rubik|700|||||||&#8221; header_2_font_size=&#8221;42px&#8221; header_2_line_height=&#8221;1.2em&#8221; text_orientation=&#8221;center&#8221; module_alignment=&#8221;center&#8221; custom_margin=&#8221;|||&#8221; custom_padding=&#8221;|||&#8221; hover_enabled=&#8221;0&#8243; header_2_font_size_phone=&#8221;36px&#8221; header_2_font_size_last_edited=&#8221;on|phone&#8221; locked=&#8221;off&#8221; _i=&#8221;0&#8243; _address=&#8221;0.0.0.0&#8243;]<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><small>Publicado na revista Morasha \u2013 Edi\u00e7\u00e3o 30<\/small><\/p>\n<p>[\/et_pb_text][et_pb_divider color=&#8221;#ffb400&#8243; divider_position=&#8221;center&#8221; divider_weight=&#8221;5px&#8221; _builder_version=&#8221;3.9&#8243; max_width=&#8221;50px&#8221; module_alignment=&#8221;center&#8221; locked=&#8221;off&#8221; _i=&#8221;1&#8243; _address=&#8221;0.0.0.1&#8243;][\/et_pb_divider][\/et_pb_column][\/et_pb_row][et_pb_row column_structure=&#8221;1_2,1_2&#8243; _builder_version=&#8221;3.25&#8243; _i=&#8221;1&#8243; _address=&#8221;0.1&#8243;][et_pb_column type=&#8221;1_2&#8243; _builder_version=&#8221;3.25&#8243; custom_padding=&#8221;|||&#8221; _i=&#8221;0&#8243; _address=&#8221;0.1.0&#8243; custom_padding__hover=&#8221;|||&#8221;][et_pb_text _builder_version=&#8221;3.27.2&#8243; text_font=&#8221;||||||||&#8221; text_font_size=&#8221;15px&#8221; text_line_height=&#8221;1.8em&#8221; custom_padding=&#8221;|||&#8221; custom_padding_tablet=&#8221;|40px||40px||true&#8221; custom_padding_last_edited=&#8221;off|desktop&#8221; hover_enabled=&#8221;0&#8243; _i=&#8221;0&#8243; _address=&#8221;0.1.0.0&#8243;]<\/p>\n<p>Parece incr\u00edvel que pelo meio do s\u00e9culo XIX meu bisav\u00f4 materno fosse propriet\u00e1rio de canaviais situados na grande Ilha de Maraj\u00f3, no norte do Brasil.<\/p>\n<p>Parece incr\u00edvel por v\u00e1rios motivos. Primeiro que tudo, ele era um jovem judeu e os judeus n\u00e3o gozam fama de aventureiros. Atribui-se \u00e0 extremosa m\u00e3e judia o poder de impedir que os filhos se exponham a perigos&#8230;<\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][et_pb_column type=&#8221;1_2&#8243; _builder_version=&#8221;3.25&#8243; custom_padding=&#8221;|||&#8221; _i=&#8221;0&#8243; _address=&#8221;0.1.0&#8243; custom_padding__hover=&#8221;|||&#8221;][et_pb_image src=&#8221;https:\/\/www.amazoniajudaica.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/como_viemos_parar_na_amazonia.jpg&#8221; _builder_version=&#8221;3.27.2&#8243; align=&#8221;center&#8221; hover_enabled=&#8221;0&#8243;][\/et_pb_image][et_pb_text _builder_version=&#8221;3.27.2&#8243; text_font=&#8221;||||||||&#8221; text_font_size=&#8221;15px&#8221; text_line_height=&#8221;1.8em&#8221; custom_padding=&#8221;|||&#8221; custom_padding_tablet=&#8221;|40px||40px||true&#8221; custom_padding_last_edited=&#8221;off|desktop&#8221; hover_enabled=&#8221;0&#8243; _i=&#8221;0&#8243; _address=&#8221;0.1.0.0&#8243;]<\/p>\n<p><em>Casamento em Bel\u00e9m do Par\u00e1-Noivos: Isaac Benchimol-Orduenha Cohen. Rabino David Benoliel Lendo a Ketub\u00e1.<\/em><\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][et_pb_row _builder_version=&#8221;3.25&#8243; _i=&#8221;1&#8243; _address=&#8221;0.1&#8243;][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243; _builder_version=&#8221;3.25&#8243; custom_padding=&#8221;|||&#8221; _i=&#8221;0&#8243; _address=&#8221;0.1.0&#8243; custom_padding__hover=&#8221;|||&#8221;][et_pb_text _builder_version=&#8221;3.27.2&#8243; text_font=&#8221;||||||||&#8221; text_font_size=&#8221;15px&#8221; text_line_height=&#8221;1.8em&#8221; custom_padding=&#8221;|||&#8221; custom_padding_tablet=&#8221;|40px||40px||true&#8221; custom_padding_last_edited=&#8221;off|desktop&#8221; hover_enabled=&#8221;0&#8243; _i=&#8221;0&#8243; _address=&#8221;0.1.0.0&#8243; custom_margin=&#8221;-4px|||||&#8221;]<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 15px;\">Em segundo lugar, sup\u00f5e-se que os judeus preferissem estabelecer-se nas cidades, perto de sinagogas, escolas, bibliotecas. Mas esse lugar a que meu bisav\u00f4 entregou as prim\u00edcias da sua vida n\u00e3o tinha sinagoga, nem biblioteca, nem sequer livraria. Era uma cidadezinha onde as facilidades, como condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias e assist\u00eancia m\u00e9dica, ainda hoje s\u00e3o prec\u00e1rias.<\/span><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pergunta-se, como se explica que um mo\u00e7o judeu, educado, nascido em T\u00e2nger, no Marrocos, apare\u00e7a feito senhor de escravos no cora\u00e7\u00e3o de uma ilha amaz\u00f4nica? &#8230; que por esse tempo, os rapazes judeus eram encorajados pelos pr\u00f3prios pais a procurar nova vida, fosse onde fosse. Qualquer lugar seria melhor do que a exist\u00eancia em guetos rodeados de mouros inimigos.<\/p>\n<p>O Brasil, a essa altura, era uma esp\u00e9cie de Terra Prometida. Um pa\u00eds com imensas \u00e1reas e pouca popula\u00e7\u00e3o, atraindo imigrantes com promessas liberais por uma lei que n\u00e3o levava em conta credo ou nacionalidade, contanto que a ra\u00e7a fosse branca. Assim, os judeus marroquinos, considerados imigrantes brancos, zarparam para a regi\u00e3o amaz\u00f4nica esperando l\u00e1 encontrar o &#8220;El Dorado&#8221;. Liberdade, acima de tudo liberdade religiosa, e, quem sabe, ouro jorrando do solo. Cedo esse fascinante sonho se desfez quando eles compreenderam que apenas haviam-se mudado do purgat\u00f3rio para o inferno. (A floresta amaz\u00f4nica \u00e9 poeticamente cognominada &#8220;Inferno Verde&#8221;).<\/p>\n<p>Mas, esque\u00e7amos a hist\u00f3ria e voltemos ao meu&#8230; devo cham\u00e1-lo &#8220;meu querido&#8221; bisav\u00f4? Nunca vi sequer um retrato seu, pois os judeus marroquinos da \u00e9poca n\u00e3o tinham o costume de se fazer fotografar. Apenas posso imagin\u00e1-lo parecido com qualquer homem marroquino.<\/p>\n<p>Pelo que ouvi contar, meu bisav\u00f4 era moreno, esguio, um homem fino, muito querido pelos seus escravos por sua bondade, educa\u00e7\u00e3o e maneiras polidas, atributos que o tornaram respeitado pela popula\u00e7\u00e3o local. Mas tenho a impress\u00e3o de que, com o fim de se manter no mesmo n\u00edvel social dos seus vizinhos, todos ricos fazendeiros, ele se teria mais ou menos ou aparentemente assimilado, pois era conhecido como &#8220;Jos\u00e9 Luiz&#8221;. Seu filho mais velho, Samuel, ingressou no ex\u00e9rcito brasileiro, na Guarda Nacional. Quanto \u00e0 minha bisav\u00f3, com a beleza combinava bem o seu nome, Gra\u00e7a. O casal veio para o Brasil j\u00e1 com tr\u00eas filhos, dois meninos, Samuel e Jos\u00e9, e uma menina, Bel\u00edzia, de apelido Vida.<\/p>\n<p>Os judeus marroquinos costumam dar \u00e0s suas filhas nomes expressivos em espanhol, como Luna, Reina, Perla e, mesmo no Brasil, n\u00e3o os traduzem. Al\u00e9m do espanhol, esses judeus usavam na intimidade da fam\u00edlia, o dialeto chamado haket\u00eda. Mas Bel\u00edzia s\u00f3 falava portugu\u00eas. Ela negava haver nascido em T\u00e2nger e afian\u00e7ava ser brasileira. &#8220;M\u00e3e Vida&#8221;, como os netos a chamavam, era pequenina, c\u00fatis cor de canela, vivaz; tinha os gestos, as maneiras, os h\u00e1bitos e as express\u00f5es de um paraense nato. Poderia muito bem passar por uma graciosa nativa. Seus companheiros de inf\u00e2ncia, filhos de vizinhos fazendeiros, tratavam-na por &#8220;Mana Vida&#8221;.<\/p>\n<p>Pelos padr\u00f5es monet\u00e1rios da \u00e9poca, meu bisav\u00f4 era rico. Senhor de pr\u00f3spera fazenda, chefe de fam\u00edlia elegante, um homem realizado, enfim. S\u00fabito tudo ruiu quando adoeceu gravemente, v\u00edtima de b\u00e9ri-b\u00e9ri. Sem recursos m\u00e9dicos onde vivia, foi levado para Londres e nunca mais voltou. Morreu em viagem e seu corpo foi atirado ao mar.<\/p>\n<p>Ficou a vi\u00fava muito jovem, inexperiente, para arcar com a responsabilidade de dirigir o engenho. Os jotabs, corretores de casamentos, movimentaram-se e, mais que depressa, arranjaram-lhe o segundo marido. Esse homem, chamado Nahmias, veio a ser o destruidor dos neg\u00f3cios e da fam\u00edlia. Para come\u00e7ar, os escravos, n\u00e3o se sujeitando \u00e0s suas crueldades, fugiram. Os dois enteados, Samuel e Jos\u00e9, cedo deixaram a casa, casaram-se premidos por circunst\u00e2ncias especiais, e ficaram afastados de parentes e correligion\u00e1rios. Ambos morreram muito jovens. A \u00fanica coisa que minha bisav\u00f3 Gra\u00e7a sabia fazer na sua desgra\u00e7a era chorar. Chorou, chorou, at\u00e9 n\u00e3o ter mais l\u00e1grimas. E cegou. Sempre a imaginei como uma dessas antigas bonecas francesas, rosto alvo de porcelana, olhos verdes brilhando, parados.<\/p>\n<p>Em realidade ela n\u00e3o era mais do que uma boneca. Era apenas uma doce, ing\u00eanua, submissa mulher. A pequena Bel\u00edzia n\u00e3o herdara a beleza materna, mas era inteligente, viva, decidida. Seu padrasto era r\u00edspido e continuava a desbaratar em viagens e jogatinas a fortuna da fam\u00edlia. A fim de escapar do seu dom\u00ednio e poder legalmente tomar posse da heran\u00e7a que lhe cabia &#8211; tinha apenas 13 anos &#8211; ela jurou casar-se com o primeiro homem que lhe pedisse a m\u00e3o, fosse ele embora um &#8220;Z\u00e9 ningu\u00e9m&#8221;. Mas teve sorte. Em vez de um &#8220;Z\u00e9 ningu\u00e9m&#8221;, apareceu-lhe como num conto de fadas uma esp\u00e9cie de pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>Ele tinha 23 anos, era bonito, face rosada, olhos escuros, alto elegante. Era rom\u00e2ntico. Falava v\u00e1rios idiomas e era versado no juda\u00edsmo. Al\u00e9m do mais, sabia cantar. O Kol Nidrei soava, na sua voz, com estranha e sentimental melodia. Chamava-se David Benoliel. Veio de T\u00e2nger, pertencia a uma gera\u00e7\u00e3o de grandes rabinos e s\u00f3 devia casar-se com quem tivesse semelhantes ra\u00edzes. Bel\u00edzia Levy era a perfeita noiva para ele. David era sobrinho do grande Rabino Shemtob e Bel\u00edzia descendia do Chacham Haim Pinto. Provavelmente o encontro de ambos foi dos meio dos jotabs, pois ela vivia em Muan\u00e1, no Maraj\u00f3, e ele, na \u00e1rea do Tocantins, para onde veio reunir-se \u00e0 sua irm\u00e3 mais velha, Paloma, a\u00ed estabelecida com o esposo, Maximiliano Bensimon, e um filho, Abraham.<\/p>\n<p>&#8230; neste ponto que se inicia a saga da minha fam\u00edlia. David Benoliel, seu cunhado Maximiliano Bensimon e um primo, Abraham Larrat, estavam inclu\u00eddos entre as dezenas de rapazes vindos de Marrocos, durante a segunda metade do s\u00e9culo XIX, para a regi\u00e3o amaz\u00f4nica. A\u00ed eles aprenderam nova l\u00edngua, ajustaram-se a uma vida diferente, a\u00ed se enraizaram. A\u00ed tiveram e criaram seus filhos. Como sobreviveram \u00e0s hostilidades do clima, \u00e0s dificuldades do ambiente, como puderam manter, preservar, transmitir o mesmo juda\u00edsmo trazido do lar paterno aos seus descendentes, s\u00f3 pode ser explicado pelo fato de que eles estavam atados de alma e cora\u00e7\u00e3o \u00e0 &#8220;\u00c1rvore da Vida&#8221;, a Tor\u00e1. Poderiam ter assimilado e esquecido tudo, se assim o desejassem.<\/p>\n<p>A vida ao longo do Rio Amazonas \u00e9 isolada. Quil\u00f4metros e quil\u00f4metros de \u00e1gua separam uma casa da outra. No entanto, na intimidade do lar, eles mantinham a religi\u00e3o, com todos os seus requisitos. Antes do p\u00f4r-do-sol, \u00e0s sextas-feiras, tudo parava. N\u00e3o se podia tocar m\u00fasica (em geral, tocavam pequenos instrumentos como violino, flauta, bandolim), n\u00e3o se podia remar nem nadar, enquanto durasse o s\u00e1bado sagrado. Casamentos e cerim\u00f4nias f\u00fanebres eram realizados severamente de acordo com as tradi\u00e7\u00f5es e rituais, alguns m\u00edsticos. Quando os livros de leitura religiosa escasseavam, eles os copiavam manuscritos, de modo que nada fosse esquecido ou omitido. Durante os dias sagrados, reuniam-se na cidade mais pr\u00f3xima, numa sinagoga improvisada. Nessa ocasi\u00e3o aproveitavam a oportunidade para circuncidar os meninos nascidos nesse ano. Nem todos, por\u00e9m, tinham possibilidades para tomar parte nessas reuni\u00f5es. Desse modo, o menino seria circuncidado com qualquer idade, dependendo do momento oportuno que se apresentasse.<\/p>\n<p>Eu pr\u00f3pria, por acaso, testemunhei um emocionante acontecimento em Bel\u00e9m. Estava de compras com uma prima de nome Piedade (o anjo benfeitor da nossa fam\u00edlia), quando de repente ela lembrou-se que devia ir \u00e0 sinagoga para assistir, no sal\u00e3o de recep\u00e7\u00f5es, \u00e0 circuncis\u00e3o dos sobrinhos de uma sua amiga, vindos do interior do Estado. A fam\u00edlia vivia num lugar distante e s\u00f3 ent\u00e3o tinham conseguido meios para trazer os meninos a Bel\u00e9m com o fim especial de os circuncidar, tornando-os parte de nosso pacto ancestral, desde Abraham Avinu. Para minha surpresa, tratavam-se de garotos entre 8 e 12 anos de idade. Eram tr\u00eas, e o trio mantinha-se unido em sil\u00eancio e pavor. Quando um velho contou o n\u00famero de homens e anunciou &#8211; &#8220;J\u00e1 temos minian, podemos come\u00e7ar&#8221; &#8211; imediatamente travou-se uma esp\u00e9cie de tourada.<\/p>\n<p>Os meninos corriam, gritando, proferindo palavr\u00f5es, defendendo com as m\u00e3os a parte do corpo que devia ser operada, repetindo: &#8220;N\u00e3o me capem!&#8221; &#8211; e os homens rindo, correndo atr\u00e1s deles, cercando-os, at\u00e9 que conseguiram aprisionar os tr\u00eas. De p\u00e9s amarrados, sem anestesia, em presen\u00e7a de todos, um a um foram circuncidados por perito Mohel. Minha prima Piedade era uma verdadeira Tzadik\u00e1. Muito religiosa, descendente de Rabi Eliezer Dabela, de quem herdou poderes sobrenaturais, sua presen\u00e7a era requerida porque tinha o dom de abrandar dores e curar certas les\u00f5es. Quanto a mim, escondi-me em outra sala, assustada. Mas n\u00e3o ouvi gritos e em um momento, quando as rezas silenciaram, compreendi que tudo havia acabado. Quando fui convidada para tomar parte na festa, fiquei surpreendida ao encontrar os meninos entre os convidados, comendo e bebendo refrigerantes. J\u00e1 ent\u00e3o eles sorriam. Embora vivendo nas brenhas do Amazonas, eles desejavam aquela opera\u00e7\u00e3o, desejavam ser parte do Brit Mil\u00e1. Sentiam-se orgulhosos de ser judeus.<\/p>\n<p>Este orgulho, no entanto, n\u00e3o proveio da liberdade com que os imigrantes sonhavam. Eles tinham que lutar para manter o seu juda\u00edsmo. O estigma judeu seguia-os at\u00e9 as profundezas da selva. Meu av\u00f4 e seus amigos eram comerciantes e suas lojas ficavam \u00e0s margens dos rios, mas cercadas pela mata. E nesses lugares escondidos eles eram alcan\u00e7ados por pogroms.<\/p>\n<p>Assim acontecia. Esses armaz\u00e9ns forneciam comest\u00edveis, roupas, rem\u00e9dios, utens\u00edlios, em troca de borracha, castanha, sementes oleaginosas, artigos que eram trazidos pelos nativos. Durante a esta\u00e7\u00e3o chuvosa, o neg\u00f3cio declinava para ambas as partes. Os contempor\u00e2neos do meu av\u00f4 David sempre lembravam, entre suas anedotas espirituosas, uma que se relacio-nava a essa situa\u00e7\u00e3o. No tempo do movimento comercial, ele costumava ir freq\u00fcentemente a Bel\u00e9m para fazer transa\u00e7\u00f5es com exportadores e bancos. Um amigo estranhou v\u00ea-lo na capital em pleno inverno e perguntou a que viera. &#8220;Vim fugindo da safra do &#8216;me ceda&#8221;. &#8220;Safra de que, nesta \u00e9poca?&#8221;. &#8220;Safra do &#8216;me ceda&#8217;, j\u00e1 disse, &#8220;me ceda um alqueire de farinha&#8217;, &#8216;me ceda um rolo de tabaco&#8217;, &#8216;me ceda uma manta de pirarucu&#8221;&#8230;. A verdade \u00e9 que ele deixara sua casa n\u00e3o somente para escapar \u00e0 &#8220;safra do me ceda&#8221;, mas sobretudo para livrar sua fam\u00edlia de algum prov\u00e1vel pogrom, ocorrido mais nessa \u00e9poca, e chamado pelo povo de &#8220;mata judeu&#8221;.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o fossem atacados fisicamente, as crian\u00e7as e mulheres ficavam em tal estado de pavor que geralmente adoeciam. O p\u00e2nico come\u00e7ava de manh\u00e3 bem cedo, quando se suspeitava, pelo mutismo do ambiente, aus\u00eancia de canoas, sil\u00eancio absoluto, que algo terr\u00edvel estava para acontecer. Ent\u00e3o \u00e0s carreiras, a fam\u00edlia escondia seus bens mais valiosos. As mulheres e as crian\u00e7as trancavam-se no dormit\u00f3rio. O dono do armaz\u00e9m abria o Sidur e se concentrava em ora\u00e7\u00f5es. Quando o c\u00e3o ladrava anunciando aproxima\u00e7\u00e3o de estranhos, o homem preparava-se para o confronto. O pogrom, isto \u00e9, homens exaltados, invadiam o estabelecimento e procediam \u00e0 pilhagem. O judeu fingia estar lendo e n\u00e3o se aperceber do que acontecia. T\u00e3o pronto os assaltantes se retiravam, a fam\u00edlia reunia-se dando &#8220;gra\u00e7as a D&#8217;s por tudo&#8221;, que o mais importante era a vida, e procurava-se esquecer o incidente.<\/p>\n<p>Quando os amigos encontravam-se novamente, discutiam o ocorrido, j\u00e1 em gargalhadas. Cada qual exagerava o montante de sua perda e se jactava do modo como reagira, levando a rid\u00edculo uns aos outros. Outras anedotas surgiam dessa fonte nova. Uma das mais conhecidas era sobre um tal Issacar que teria decidido amedrontar os intrusos, recebendo-os de rifle em punho. Quando os ladr\u00f5es chegaram ele os fez recuar, gritando-lhes &#8211; &#8220;Aquele que der um passo a frente \u00e9 homem morto&#8221;. Os homens se acovardaram e j\u00e1 iam retirando-se, quando Issacar, explodindo de raiva, falou para si mesmo, mas em tom bastante alto: &#8220;Ah, mamzerim! &#8230; pena n\u00e3o ter uma bala, sen\u00e3o acabava com todos voc\u00eas!&#8221;. &#8230; de se imaginar o que aconteceu depois dessa confiss\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Pois bem. Apesar de todas as adversidades, estes jovens judeus decidiram ganhar a batalha contra a natureza e contra os homens. Permaneceram no mesmo lugar, trabucando no mesmo neg\u00f3cio durante anos, at\u00e9 haver poupado bastante dinheiro para se mudar para a capital, poder educar seus filhos e abrir caminho para gera\u00e7\u00f5es mais afortunadas. Na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX muitos deles j\u00e1 se encontravam em situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica folgada e pertenciam \u00e0 alta camada da sociedade de Bel\u00e9m. Ituquara, Marari\u00e1, Cariri e outros &#8220;furos&#8221; cujos nomes nem aparecem no mapa do Par\u00e1 eram s\u00f3 lembran\u00e7as dos tempos idos.<\/p>\n<p>Meus av\u00f3s paternos, Moys\u00e9s Levy e H\u00e1lia Dabela Levy, vieram respectivamente de Rabat e Casablanca. Eram imigrantes tamb\u00e9m &#8211; n\u00e3o de origem espanhola e, por isso, falavam harb\u00eda. Eram muito respeitados pelos outros judeus porque minha av\u00f3 H\u00e1lia era nobre. Do ponto de vista dos judeus marroquinos, a nobreza \u00e9 baseada no n\u00famero ou magnitude de rabinos entre os ancestrais. Minha av\u00f3, H\u00e1lia Dabela, era descendente de Rebi Eliezer Dabela, um rabino a quem se atribu\u00edam milagres. Um deles foi fazer parar uma enchente, marcando com o seu bast\u00e3o at\u00e9 onde as \u00e1guas deviam chegar. Usava sempre esse bast\u00e3o, que se encontra entre seus descendentes em Casablanca, e um colar de \u00e2mbar que minha av\u00f3 H\u00e1lia herdou e \u00e9 conservado na nossa fam\u00edlia. Esse colar era pendurado na cama dos enfermos e das parturientes pelos seus efeitos milagrosos.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estaria aqui, agora, se n\u00e3o fosse pela decis\u00e3o de minha av\u00f3, Bel\u00edzia, de casar, aos 13 anos, com David Benoliel. Foi uma uni\u00e3o feliz que ultrapassou as bodas de ouro e da qual houve v\u00e1rios filhos, inclusive Esther, minha m\u00e3e. Em sua juventude, Esther era considerada uma das mais belas mo\u00e7as de Bel\u00e9m. Tinha 18 anos quando se casou com Eliezer, \u00fanico filho de Moys\u00e9s e H\u00e1lia Levy, o mais atraente e desejado solteir\u00e3o (aos 24 anos!) da cidade de Bel\u00e9m. Casaram-se na cidade de Camet\u00e1, a 21 de mar\u00e7o de 1900.<\/p>\n<p> <span style=\"font-size: small;\"><em>Sultana Levy Rosenblatt, conhecida colaboradora de Morash\u00e1, acaba de completar, em julho \u00faltimo, 90 anos, em McLean, Virginia, nos Estados Unidos, onde reside. Seus escritos encantam familiares e v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de paraenses e amazonenses. &#8230; um privilegio t\u00ea-la entre nossos colaboradores.<\/em><\/span><\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][\/et_pb_section]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como viemos parar na Amaz\u00f4nia Por:\u00a0Sultana Levy RosenblattPublicado na revista Morasha \u2013 Edi\u00e7\u00e3o 30 Parece incr\u00edvel que pelo meio do s\u00e9culo XIX meu bisav\u00f4 materno fosse propriet\u00e1rio de canaviais situados na grande Ilha de Maraj\u00f3, no norte do Brasil. Parece incr\u00edvel por v\u00e1rios motivos. 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